Ir para o conteúdo principal

Porto Alegre (RS), sexta-feira, 27 de novembro de 2020.
https://espacovital.com.br/images/jovem_advocacia vermelho.jpg

A afinidade entre juizite e carteirada



Charge de Amarildo Lima – Jornal A Gazeta (Vitória/ES)

Imagem da Matéria

O Espaço Vital reiteradamente vem publicando matérias retratando atos polêmicos praticados por magistrados em todo o Brasil. Nas últimas semanas, dois casos ganharam especial destaque: "o desembargador paulista da carteirada", na praia de Santos (SP), e mais recentemente, o "desembargador do palavrão contra a advogada", em Santa Catarina.

Tais fatos, assim como muitos outros já retratados, denotam uma triste enfermidade que acomete uma parcela dos homens da toga neste país: a síndrome da juizite. Tal estado crítico é aquele em que magistrados se colocam acima do bem e do mal, na parte mais alta, sobre tudo e sobre todos, seja no mundo dos fatos ou no mundo jurídico, seja na vida íntima ou nos tribunais. Aqueles que padecem da síndrome detestam ser contrariados e contestados, e quando o são, utilizam-se do cargo ocupado para intimidar, e em casos mais graves, até para ameaçar.

Tais pessoas acometidas de juizite, em sua vida profissional não gostam de receber advogados, não toleram despachar com eles, nem tampouco ouvi-los.

Mas o pior é que, quando os desmandos são amplamente noticiados, logo aparecem as pseudas justificativas, as explicações e as notas de esclarecimentos. Até porque é preciso dar respostas à sociedade, não é? É necessário manter (ou transparecer) a conduta moral ilibada, não é mesmo?

Infelizmente, é nessa hora (das defesas, das desculpas) que a síndrome da juizite se confirma. Ela já foi manifestada anteriormente, mas nas justificativas ela se ratifica, e até mesmo se intensifica.

Incrivelmente, o "desembargador do palavrão" começa as explicações assim: "Sou extremamente respeitoso com os advogados nas sessões, inclusive utilizando o pronome Vossa Excelência, quando me refiro a eles, ainda que por vezes tratado como Vossa Senhoria”.

Ora, seria uma afronta ao Excelentíssimo Senhor Doutor Desembargador eventualmente, ainda que por algum equívoco, ser tratado com o pronome Vossa Senhoria? Teria algum problema o Douto Magistrado em tratar o advogado com o pronome Vossa Excelência, considerando-se a conceituação legal do Estatuto da Advocacia, de que não existe hierarquia e nem subordinação entre advogados, magistrados e membros do Ministério Público?

Ou seria doloroso para o Excelentíssimo Senhor Desembargador tratar um advogado com o pronome Vossa Excelência?

No caso catarinense, nas explicações perolares, afirmou o magistrado José Ernesto Manzi, do TRT-12 que o palavrão fora destinado a uma conversa paralela que mantinha no WhatsApp... Mas justo enquanto a relatora proferia o seu voto, estaria o desembargador do palavrão desatento ao contexto jurisdicional, preferindo dedicar-se a diálogos paralelos?...

Comparemos: e se fosse um advogado, em plena sessão, soltando um palavrão? Como reagiria esse desembargador se fosse chamado de f---- da p--- ? Imaginamos que “acabaria o mundo”. E logo viria uma ação indenizatória, claro...

Zero trabalho, muita praia

Afastado do cargo desde a decisão de terça-feira (25), do CNJ, o desembargador paulista Eduardo Siqueira continuará recebendo salário enquanto durar o processo disciplinar. Neste ano, a remuneração mensal líquida dele está sendo de R$ 41 mil, em média. Dane-se o teto constitucional.

Sem trabalhar nas próximas semanas, Siqueira poderá caminhar por mais tempo na praia. E se não quiser usar máscara, ainda terá bastante dinheiro para pagar as multas.

 

Comente esta matéria

O Espaço Vital terá satisfação em receber seus comentários. Use o formulário A PALAVRA DO LEITOR, logo abaixo, e dê sua opinião.


A PALAVRA DO LEITOR

Se você quiser esclarecer, comentar, detalhar, solicitar correção e/ou acréscimo, etc. sobre alguma publicação feita pelo Espaço Vital, envie sua manifestação.

Mais artigos do autor

Por que o jovem ainda é tão subestimado?

 

Por que o jovem ainda é tão subestimado?

Em Agudo (RS) - pequeno município gaúcho a 250 km de Porto Alegre - com 17,5 mil habitantes, o jornalista Luis Henrique Kittel, 35 de idade, faz história em sua primeira experiência política. Foi eleito prefeito, derrotando experientes caciques que, há anos, duelam pelo poder local.

Imagens: Freepik - Montagem: Gerson Kauer

Luz alta nos Conselhos Profissionais

 

Luz alta nos Conselhos Profissionais

O que o acórdão do TRF-4 que condenou o CREMERS pode estar sinalizando em relação às decisões corporativas, das entidades que congregam médicos, advogados, engenheiros... Inclusive para a própria OAB, onde muitos processos ético-disciplinares não tiveram soluções práticas porque alcançados pela prescrição.