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Porto Alegre (RS), terça-feira, 22 de setembro de 2020.
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O Meretrício Doutor Juiz



Imagens: Freepik - Montagem: Gerson Kauer

Imagem da Matéria

A maioria dos servidores estava em greve. O juiz tentava realizar as audiências, mesmo com parcos recursos de pessoal: só dois funcionários no fórum e, cedida pela prefeitura, uma estagiária de limitados conhecimentos vernaculares e jurídicos.

Um grande rolo aportara recheado de papelório: um inquérito sobre tráfico de drogas, com prisões, habeas corpus e enorme apreensão feita na zona do meretrício. A jovem estagiária Juliana - carinhosamente conhecida como Juju - instada pelo magistrado, mostrou-se disposta: “Doutor, eu posso digitar a audiência, mas não sou muito rápida no computador. Nem tenho experiência nesses tais de termos de juridiquês...

- Sem problemas. Iremos devagar – admitiu o juiz.

Ele ouvia os depoimentos, e ditava para Juju. A duras penas os termos eram concluídos e assinados, um a um, pelos depoentes, pelos defensores e pelo promotor. O juiz assinaria tudo de uma vez, no final.

Quatro horas e meia depois terminou a audiência; então todos foram embora e o magistrado - ficando só - resolveu dar uma lida. Perplexo, então, observou que, em todos os depoimentos, toda a vez que ditara “zona do meretrício”, a estagiária fizera constar “zona do meretíssimo”. Não havia mais como consertar o que estava escrito e impresso, pois os depoimentos eram muitos e estavam todos assinados. A solução foi deixar assim mesmo...

Mas o juiz foi precavido, ao sentenciar. Para evitar embargos advocatícios ou embaraços no tribunal - se o MP e os desembargadores chegassem a ler os depoimentos atentamente... – o magistrado fez constar, em letras itálicas, a seguinte observação:

“Registro preliminarmente que, nos depoimentos, as reiteradas referências feitas à ´zona do meretíssimo´ [e nem sequer ´meritíssimo´ era...], a esforçada estagiária que auxiliou na prestação jurisdicional cometeu repetidos equívocos: a intenção foi a de digitar, evidentemente, ´zona do meretrício´, local da cidade onde se deu a vigorosa ação policial e a consistente apreensão de drogas”.

No segundo grau, MP e Corte passaram voando, sem escalas, por cima dos erros de digitação. E a sentença foi confirmada.

Na comarca, a estagiária Juliana ficou conhecida - além de Juju - como a “meretíssima estagiária” (e nem meritíssima era). E na região, o eminente juiz foi gozado pelos colegas. Ganhou o epíteto de “meretrício Doutor Fulano”...

Falta agora esperar que a mordaz ironia tenha seu trânsito em julgado.


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