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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 23 de outubro de 2020.
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O dia em que Marco Aurélio cansou



Edição EV sobre caricatura de Spacca / Conjur

Imagem da Matéria

Após receber duras críticas por libertar o traficante André do Rap, o ministro Marco Aurélio Mello se cansou. Estava convicto de que a lei deve ser aplicada de maneira indistinta, impessoal, mas não aguentava mais o burburinho, sempre que o STF emitia juízo em desacordo com os epidérmicos anseios sociais.

Ele decide conversar sobre o assunto com o ministro Gilmar Mendes que, por sua vez, lhe confessa estar exausto de apanhar de uma sociedade que não reconhecia seus esforços em “defender princípios que são pilares da democracia”.

- “Mas de que adiantam os pilares, se as pessoas não desejam mais viver sob o teto que eles sustentam?” - questiona, cético, Marco Aurélio.

Os ministros, então, com o apoio de seus pares, conseguem criar uma nova ordem jurídica e emplacam a tese dos novos pilares. De ofício, eles já convertem em perpétua, a prisão preventiva do traficante André do Rap.

Então, Gilmar e Marco Aurélio caem nas graças do povo.

Em seguida, o princípio da legalidade dá lugar ao princípio da subjetividade. O grau único de jurisdição e a presunção de culpa foram as inovações que mais trouxeram celeridade ao processo, agradando as pessoas em geral, salvo, é claro, aquelas que eram processadas, especialmente as minorias.

Em um só movimento, Marco Aurélio havia desafogado o Judiciário e conquistado o amor do público. E não era só isso. Ele estava mais realizado como ministro. Dias atrás, evocou o princípio da subjetividade para conceder aposentadoria no teto da previdência para seu Dedé, um senhor muito querido, mas que não tinha contribuições suficientes para se aposentar.

- “Ele merece!” - disse o ministro, em seu voto.

Mas um dia, da tribuna, uma advogada sem a vestimenta adequada e sem pronunciar bem os plurais, deixa de atentar para a liturgia da sessão de julgamento, dirigindo-se a Marco Aurélio como “tu” e não como “Vossa Excelência”.

O ministro, então, se levanta e começa a repreender duramente a ocupante da tribuna, defendendo o decoro e a bendita liturgia, até começar a perder o fôlego e a sentir dores no peito, vindo a cair, desfalecido.

Ao recobrar a consciência, Marco Aurélio está em sua cama. Ele olha ao redor e seus olhos encontram os de sua esposa que o contemplava, enquanto dormia.

Ela constata:

- “Amor, você parecia estar tendo um sonho maravilhoso que, de repente, virou um pesadelo.

- “Sonhei que eu era livre para julgar, sem me preocupar com a Constituição e o Estado Democrático de Direito”... – responde o ministro.

- “Bem, levante-se, então, que hoje é dia de sessão do Pleno e vão discutir a sua polêmica decisão de soltar o André do Rap.

- “Pois é... defender a Constituição é muito, mas muito difícil. É por isso que eu peço para as pessoas, pelo menos, atentarem para a liturgia... Pelo menos isso”.


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