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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 27 de novembro de 2020.
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Palavras e expressões perigosas (9)



Imagem: Freepik - Arte EV

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Seguem mais casos de palavras e expressões cujo uso requer atenção especial à forma e ao significado:

Pegado / Pego: A forma tradicional do particípio do verbo pegar é pegado, mas na linguagem popular surgiu pego (admitindo-se dupla pronúncia do e: fechada ou aberta), forma que acabou consagrada pela literatura. Em linguagem técnica, científica e administrativa, como a jurídica, no entanto, é preferível usar sempre pegado

Pessoa humana / Ser humano: A rigor, há redundância na expressão pessoa humana; se é pessoa, só pode ser humana, e se é humana, só pode ser pessoa. No entanto, a difusão do uso da expressão em muitas e variadas situações legitimou-a em algumas situações específicas, em especial nos campos das ciências jurídicas e sociais. Tanto é verdade que a expressão ganhou guarida na Constituição Federal de 1988 (artigo 1.º, inciso III, e artigo 34, inciso VII, alínea b). Em usos e sentidos mais genéricos, deve-se preferir ser humano ou simplesmente pessoa.

Quitado / Quite: A única forma do particípio do verbo quitar é quitado; quite é apenas forma adjetiva, no sentido de estar livre de dívida.

Ratificação / Retificação / Rerratificação: Enquanto ratificação significa confirmação, retificação tem o sentido contrário, de modificação, de emenda, de correção. Já rerratificação é palavra a ser usada quando se retifica um documento ou se lhe acrescenta algo para depois ratificá-lo novamente. Admite-se a variante reti-ratificação.

 

Quando não se escreve direito...

 

Numa audiência em Juizado Especial Cível, na comarca de Caxias do Sul (RS), teria ocorrido o seguinte diálogo:

– Doutora juíza, vim desacompanhado de advogado com a convicção de que a senhora é leiga – expressou um corretor de imóveis na abertura de uma audiência de conciliação. A ação tratava de uma possível divisão de comissão por compra e venda de imóvel.

– Não, eu não sou leiga, sou togada – respondeu a magistrada.

– A senhora é leiga, sim – insistiu o cidadão.

Quando a juíza negou novamente, e um certo clima incômodo se instalava, o réu complementou:

– Sim, a senhora é leiga, pois entende de lei...

A magistrada expressou um sorriso amarelo e afirmou irrecorrível:

– A prestação jurisdicional é coisa séria...

Em relação aos idiomas às vezes também é assim: parece, mas não é. Pela semelhança, a palavra leiga bem que poderia ter a mesma origem de lei, legal, legítimo, ou seja, o substantivo latino lex, legis, o que daria razão ao corretor de imóveis. No entanto, assim como a prestação jurisdicional, a etimologia também é coisa séria: leigo deriva da palavra latina laico, usada originalmente para designar o serviçal dos conventos, aquele que não recebeu ordens sacras, advindo daí outros significados, como desconhecedor, inexperiente, mundano; no Direito, por extensão, também é usado no sentido de não diplomado; juiz leigo é aquele que não foi diplomado dentro dos ritos tradicionais da magistratura.

Portanto, o corretor de imóveis não estava com razão alguma, mas a juíza titubeou, saindo-se muito bem, porém pela tangente.


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