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Porto Alegre, terça-feira, 12 de junho de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 18).
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Confusões no gravador



Imagens: Freepik - Montagem: Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Carlos Alberto Bencke, advogado (OAB/RS nº 7.968)

O caso do estupro da jovem Mariana Ferrer - que virou celeuma nacional pelos atropelos verbais durante a audiência judicial, em Florianópolis  - trouxe à baila um anterior acontecimento envolvendo um outro jovem magistrado. Este - então recentemente concursado e recém chegado na comarca de entrância inicial - deparou-se com a ação penal de um suposto estupro. Envolvia o filho do mais rico empresário da cidade e uma linda modelo da Capital. O fato teria ocorrido numa festa na casa da família.

Lida a denúncia, examinadas as provas, nada parecia conduzir para a condenação do sedizente estuprador. Este, aliás, estava muito bem representado por um caríssimo advogado da Capital. Mas o juiz recebeu a denúncia e marcou o interrogatório.

No dia da audiência, o novel magistrado  – que era muito discreto nas suas aparições sociais na cidade – entrou no fórum vestido de forma muito comum. Pela sua idade, ele conhecia bem as expressões usadas pela juventude local. Num banco do corredor, vislumbrou sentado um jovem à espera de seu advogado. Havia um lugar vago ao lado.

O magistrado não teve dúvidas. Sentou-se e puxou assunto.

– E aiê, meu? Tudo bem?

– Ãhan – respondeu laconicamente o acusado do estupro.

– Qual é teu problema? Eu tô ferrado por levar uns bagulhos numa festinha de gente rica aqui na cidade. Rolou cada coisa naquela festa... foi massa!

– Eu tava nessa festa, cara. E me ferrei. Tô aqui acusado por estupro de uma modelo que tava lá.

– Quem? A Maria? Conheço ela. É linda. Pô, cara, tu faturou aquele monumento?

Como todo homem canalha para quem não é suficiente desfrutar da relação íntima - mas tem de contar para os amigos... - o jovem falastrão não aguentou e vangloriou-se, sempre pensando que estivesse falando com um cafajeste do seu nível.

– Sim, faturei. Ela não queria e eu tive que botar uns bagulhos na bebida dela. Mas valeu a pena. Linda, gostosa e, cara... era virgem! Botei camisinha.

O interlocutor depois de ouvir isso, disse que iria sair para ´dar um tapa´ num baseado lá fora.

Quando o acusado entrou na sala de audiências com seu caríssimo advogado, levou um susto enorme, ao ver seu momentâneo vizinho de sala de espera, sentado no lugar mais alto da sala. À direita estava o promotor.

Aberta a audiência, o juiz ligou o gravador do celular e a conversa ecoou na sala. O advogado, sem acreditar, tentou protestar, mas seu apavorado cliente já havia confirmado que era ele o participante da conversa. E contou toda a história. Foi condenado. Houve recurso de apelação. E o juiz ficou sob investigação na Corregedoria pela forma inusitada do interrogatório.

Oportunamente, num outro Romance Forense, talvez eu possa contar o desfecho. Antecipo que duas teses estiveram em confronto.

Uma: tratou-se de estupro, crime hediondo e o Direito precisa ser efetivo.

Outra: não valeu a confissão, devendo aplicar-se o direito garantista de o cidadão não fazer prova contra si mesmo.

Entrementes, ecoaram várias semanas, nos corredores da comarca, versos e música de Tom Jobim - imortalizados na voz de Gal Costa - em Anos Dourados:

“Não lembro /

Parece dezembro /

De um ano dourado /

Parece bolero, te quero, te quero /

Dizer que não quero /

Teus beijos nunca mais /

Te ligo ofegante /

E digo confusões no gravador...”

Para recordar os lindos versos e músicas de Tom Jobim, clique aqui.


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