Ir para o conteúdo principal

Edição Extra, interrompendo, em 11.1.2020, as férias da Equipe Espaço Vital
https://espacovital.com.br/images/romance_forense.jpg

O Benedito que não existia



Ilustração de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Sabe onde o diabo perdeu as botas? Pois é... Benedito nasceu ali pertinho. O pai, mal conheceu. Da mãe, tinha lembrança nenhuma. Nasceu em casa; era o segundo e último filho do casal. Não foi registrado, também não foi batizado e nunca estudou em escola.

Como perdeu os pais quando criança, foi criado pelo irmão, seis anos mais velho. Teve que ir ao batente  desde cedo, para ter o que comer. Analfabeto, trabalhava em troca de comida, na lavoura dos vizinho. Assim Benedito passou a infância, a juventude e a maturidade.

Como não tinha registro de nascimento, nunca teve documentos pessoais. Não se apresentou para o serviço militar, dessarte não tinha certificado de reservista. Não fez alistamento eleitoral, tampouco tinha carteira de trabalho. E também não tinha CPF, o que lhe dava basicamente direito a nada.

Benedito não casou e não teve filhos. Teve uma namorada aqui, outra acolá, nada que fosse levado adiante. Aprendeu a tocar sanfona; fazia isso para os conhecidos, para os patrões eventuais, alegrando as noites escuras e serenas do longínquo distrito onde morava.

Assim Benedito envelheceu, trabalhando na roça, em troca de pouso e de comida, sem saber ler e escrever, sem documentos, sozinho no mundo. À noite, seguidamente tocava sanfona. Precocemente, as rugas marcaram seu rosto, exposto incansavelmente ao sol, sob a proteção de puídos chapéus de palha. Suas mãos envelheceram e enrijeceram antes das mãos dos amigos.

Aos 50 anos, o corpo de Benedito já não ostentava força, nem agilidade. Sua dentadura foi estragando aos poucos - assim seu sorriso mostrava apenas um único dente, escurecido, meio torto. Mesmo assim, ele ainda sorria. Estava feliz, porque um advogado o estava ajudando a conseguir a aposentadoria, com o que poderia, enfim, ter uma velhice tranquila.

Mas para entrar com o pedido previdenciário precisava ao menos de algum documento de identificação pessoal, para

comprovar que ele era o Benedito.       

         Na conjunção houve o ingresso de uma “ação de lavratura de assento de nascimento extemporâneo”. Na audiência de justificação Benedito contou sua história. A juíza confidenciou, depois, que tivera que segurar as lágrimas, quando, após terminar a narrativa, Benedito abrira aquele sorriso de um dente só, feliz, esperançoso, com um brilho nos olhos.

Isso, porque a magistrada garantira que, sem demora, daria a sentença. Compromisso cumprido, a juíza proferiu a sentença na semana seguinte. Benedito agora existia, tinha uma identidade.

Alguns meses depois Benedito foi ao fórum, procurou o escrivão, a quem disse que ali tinha ido porque “queria agradecer pessoalmente à juíza que tinha cumprido com a palavra”.

Admitido no gabinete, Benedito compartilhou a alegria de que, naquele dia, havia recebido o primeiro pagamento de sua aposentadoria. A confidência do visitante fez a magistrada, de novo, quase chorar:

- Doutora, agora vou começar a juntar dinheiro para fazer a minha dentadura. Se a senhora me der licença, quando eu estiver de dentadura, dentro de alguns meses, volto aqui para lhe agradecer de novo.

E Benedito partiu sorridente. A juíza espera que, sem tardança, ele faça nova visita, dessa vez como protagonista de um sonhado sorriso Colgate ou Kolynos...

_______________________________________________________________________________________________________

           (Sintetizado a partir de relato da juíza Denise Damo Comel, do TJ do Paraná, publicado pelo CNJ em “A Justiça Além dos Autos”).


A PALAVRA DO LEITOR

Se você quiser esclarecer, comentar, detalhar, solicitar correção e/ou acréscimo, etc. sobre alguma publicação feita pelo Espaço Vital, envie sua manifestação.

Mais artigos do autor

Ilustração de Gerson Kauer

Imprevistos, intimidades e extravagâncias

 

Imprevistos, intimidades e extravagâncias

O casal havia se separado e, depois disso, o ex-marido teria ameaçado a esposa, o que os leva ao fórum para a resolução da pendenga. De repente surge sobre a mesa da sala de audiências. De repente, surge na cena um sugestivo artefato erótico de silicone. É o maranhão...

Ilustração de Gerson Kauer

Jogo de palavras

 

Jogo de palavras

O sucesso do famoso advogado Doutor Oidivo, que muito agradou aos integrantes da câmara julgadora do Tribunal de Justiça. Mas, até hoje, seu abonado cliente está em dúvidas se venceu a causa, ou se perdeu. O texto é do advogado Carlos Alberto Bencke.

Ilustração de Gerson Kauer

“Faz-quase-tudo”

 

“Faz-quase-tudo”

Nas duas empresas coligadas - uma produtora de vídeo & uma corretora de seguros - a secretária era obrigada a assistir e palpitar sobre cenas previamente gravadas em motéis e montagens de vídeos pornôs. “Era um abuso, doutor!” - desabafou a trabalhadora, em seu depoimento na audiência da ação trabalhista.

Imagens: Freepik - Montagem: Gerson Kauer

Confusões no gravador

 

Confusões no gravador

O estupro de Mariana Ferrer - que virou celeuma pelos atropelos verbais durante a audiência em Florianópolis  - trouxe à baila um anterior acontecimento envolvendo outro jovem magistrado. Este - recém concursado e chegado na comarca interiorana - deparou-se com a ação penal de um suposto estupro. Envolvia o filho de rico empresário da cidade e uma linda modelo. Aproveite para ver e ouvir “Anos Dourados”, versos de Jobim, na voz de Gal Costa.

Imagens: Freepik - Joao Gilberto: Divulgação via Sul21 - Lupicinio: Blog vidanovametabolica

A doutrina jurídico-musical de Lupicínio Rodrigues e João Gilberto

 

A doutrina jurídico-musical de Lupicínio Rodrigues e João Gilberto

No julgamento da apelação sobre homicídio praticado pela mulher contra o cônjuge adúltero, a invocação de versos do cancioneiro popular brasileiro. “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor / Ter loucura por uma mulher” - evoca o relator. Em sentido contrário, posiciona-se o vogal: “Pra mim, você mentiu / Pra Deus, você pecou”.