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Porto Alegre, sexta-feira, 16 de abril de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 20).
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Jogo de palavras



Ilustração de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Carlos Alberto Bencke, advogado (OAB/RS nº 7.968)

O Dr. Oidivo, advogado famoso, saiu de sua cidade na fronteira do Estado para ir a Porto Alegre, onde faria sustentação oral em importante julgamento no Tribunal de Justiça.

Ele era conhecido pela sua oratória, sempre permeada por elogios aos magistrados, aos colegas, ao procurador, aos funcionários, aos estagiários presentes na sala de sessões, ao público. Tudo bem ao estilo do advogado de júri. Ao fim, foi muito elogiado pelos integrantes da Câmara julgadora.

Porém, não vingou a brilhante tese elaborada pelo Dr. Oidivo, em madrugadas inteiras de estudos, inclusive de doutrina estrangeira e Direito medieval. E perdeu a causa. Era um caso importante para o cliente que chegou a pensar em acompanhar o seu patrono à Capital, mas por ele foi dissuadido ao argumento que iria se incomodar com o que diziam os desembargadores e, afinal, não entenderia nada.

Terminado o julgamento, o famoso jurista preparou-se para a volta à sua cidade de origem, com a terrível missão de dar o resultado do julgamento para seu constituinte. Lá chegando, marcou para o dia seguinte bem cedo a visita de seu cliente, homem sabidamente de muitas posses e pouca paciência.

O Doutor Oidivo sabia conduzir uma conversa, mesmo para dar notícias ruins. Dono de uma notável presença de espírito, recebeu o cliente com um largo sorriso e afirmou:

– Seu Adoniram, nossa causa no tribunal foi um sucesso. Os desembargadores perceberam a inteligência da minha tese. Discorri longamente sobre as questões de fato, expus com clareza solar o Direito que socorre um cidadão de bem – como no seu caso – e na hipótese de ocorrência de fatos da mesma natureza que aquela enfrentada nos autos. Enfim, a sustentação oral alcançou plenamente seu objetivo. O senhor não investiu à toa para me deslocar à Capital.        

– Tá, doutor, mas eu ganhei?        

– Seu Adoniram, a vitória em um processo não se resume ao resultado final. Temos de examinar os prós e os contras do acórdão que será lavrado. O que pende a nosso favor é que os desembargadores entenderam a complexidade da causa e fizeram muitas observações sobre o Direito e a jurisprudência aplicada ao caso.

– Mas e aí, doutor? Eu ganhei? – insistiu o cliente, já chegando ao limite da sua pouca capacidade de manter-se calmo. 

– Em resumo, seu Adoniram, eu fui muito bem no julgamento, mas o senhor...

Até hoje o cliente não sabe se ganhou ou perdeu.         


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