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Porto Alegre, terã-feira, 20 de abril de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 23).
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Hoje o mundo é o Brasil



Foto de Adolfo Gerchmann / Google Imagens

Imagem da Matéria

A íntegra deste meu artigo foi publicada - aqui no Espaço Vital - em 15 de maio de 2020, quando o Brasil atingia 13 mil mortos e o mundo 250 mil, todos vitimados pela Covid 19. Em menos de um ano temos mais de 259 mil mortos apenas no Brasil e o colapso na estrutura de Saúde do país.

Republico no intuito de auxiliar a mudança de postura de todos nós. Acrescento, sem nenhuma restrição, que apenas uma conclusão altero. É que temos um presidente ativo e omissivo e um arremedo de ministro da Saúde - uma vergonha. Soma-se a isso o senador filho do capitão que zomba de todos nós comprando uma bela mansão na capital federal.

Segue o artigo de maio de 2020:

Na mesma pedra se encontram,

Conforme o povo traduz,

Quando se nasce – uma estrela,

Quando se morre – uma cruz,

Mas quantos que aqui repousam

Hão de emendar-nos assim:

Ponham-me a cruz no princípio...

E a luz da estrela no fim!

(Mário Quintana).

A banalização se multiplica pela imposição do individualismo incrementado pelo modo de vida que nos é convenientemente imposto. A finitude nos impulsiona à incansável busca da felicidade plena, mesmo que cegos à realidade.

Na intimidade, diante da aridez futura, fomos acometidos, mesmo que inconscientemente, por um defensivo negacionismo. Na mesma velocidade da comunicação, das imagens que testemunhamos na indiferença das imagens, anestesiamos as nossas emoções com atenuantes arranjos mentais.

Antes porque o problema estava circunscrito à China, depois porque o caos no sistema de saúde assolava a Itália, a Espanha e os Estados Unidos.

Morrem mais pessoas de gripe em cada inverno do que da Covid-19. As doenças cardiovasculares matam mais que o vírus.

Setenta por cento da população será contaminada. Quanto mais cedo o rebanho se contaminar, mais cedo e mais pessoas desenvolverão mecanismos fisiológicos de proteção.

Mas chegamos no “olho do furacão”. Diariamente morrem quase mil pessoas no Brasil, totalizando mais de treze mil óbitos. Todos têm nome, endereço, parentes, amigos e o futuro abruptamente interrompido.

Em algumas cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Recife e Fortaleza, dentre outras, um verdadeiro caos no atendimento aos doentes. Faltam leitos, respiradores, remédios e afeto. As negociatas se sobrepõem à honestidade, com a aquisição de respiradores, máscaras e até de álcool em gel.

Sepultamentos coletivos após isolamentos absolutos que se estendem pelo tempo da internação, da morte e do funeral.

Gente sofrida na vida e na morte!

A escolha daquele que poderá viver pelo acesso ao tratamento incerto, ou que morrerá diante da certeza da desassistência. Médicos, enfermeiros e atendentes perdendo a batalha para a morte em razão da precariedade. Estamos diante do desconhecido.

Será difícil conviver por tempo indefinido, com a dúvida da virtual contaminação e com a inexistência de um prognóstico evolutivo da doença.

Primeira onda, segunda onda... Treze mil mortos em nosso país e duzentos e cinquenta mil no mundo, tudo em praticamente dois meses. Ao par, embora valorativamente incomparável, uma nefasta e imprevisível crise recessiva na economia. Morrerão milhares de CPFs e de CNPJs.

Uma cena ocorrida em Manaus, exibida em um noticiário me chocou: uma mulher com traços indígenas, sentada no degrau de um pequeno hospital, chorava desesperadamente bradando por Deus e soqueando o chão. Aquela mulher lamentava a perda da filha de 15 anos. As atuais treze mil perdas se desdobram em milhares de sofrimentos, dramas que marcarão existências.

É incompreensível que diante do quadro da tragédia tenham curso passeatas, carreatas, disputas que estimulam a hostilidade social, fomentadas por um egocentrismo maiúsculo que habita personalidades minúsculas.

No final da semana do Dia das Mães (9 e 10 de maio de 2020), foi publicada nas redes sociais a cena da dança que imita um ritual fúnebre africano, um meme. Ele teria sido organizado por um jovem advogado gaúcho, em um restaurante, em Gramado (RS), onde os garçons simulavam o ataúde tendo sobre os ombros baldes de espumantes servidos em uma mesa. À frente o jovem apontado como mentor, dançava freneticamente.

É inacreditável uma alienação de tamanha expressão, justamente quando o Brasil atingia a marca de dez mil mortes pela Covid-19.

Ao jovem que conduzia o patético cortejo é possível aplicar-se a atenuante da imaturidade irresponsável, ou reconhecer-se sua degradação moral.

Mas o que dizer do exemplo que veio da mais alta autoridade do país no mesmo final de semana: um pretextado churrasco e um efetivo passeio de moto aquática no Lago Paranoá?

Como eternizado por Mário Quintana, a cruz deveria ser grafada na pedra, junto da data de nascimento de muitos desventurados. Uns a carregam, como aqueles vitimados pela peste e outros, insensíveis a ela, buscam apenas a luz da estrela.

Hoje a dor do outro também é a nossa dor.

 

Leia na base de dados do Espaço Vital: “Treze mil funerais”.

 


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