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Porto Alegre, terã-feira, 20 de abril de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 23).
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Amante à moda antiga



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

O operador jurídico jubilado, 63 de idade, viúvo, boa aposentadoria, contratou - com as melhores intenções empregatícias - uma serviçal. Ele queria o apartamento bem arrumado, roupas lavadas e passadas, e o almoço na hora certa.

Talvez pela solidão em que vivia – embora a abissal diferença cultural – ele começou a enxergar a doméstica, 42 de idade, com outros olhos.  Não demorou, passou para a fase dos bilhetinhos.

Primeiro, protocolares: “O almoço estava delicioso”; “Apreciei a panqueca com guisado”.

Depois afetivos: “Meu anjo”; “Prestativa mulher que preenche meus dias”).

E, afinal, partiu para as pitadas sexuais: “Tens belas nádegas”; “Imagino a firmeza dos teus seios”.

A serviçal diz que não acedeu jamais e que, dois meses depois de repetir os rechaços ao patrão, foi demitida. Recebeu todas as parcelas rescisórias certíssimas. Mas – com o apoio de um novel advogado – ela foi ao juízo trabalhista buscar reparação por dano moral decorrente de alegado assédio sexual.

A prova foi apenas a documental. O juiz observou que, em um dos cartões, o empregador referira ter “adorado o teu bilhete de ontem; é um sinal de que o nosso caso pode estar progredindo”.

Interpretando esse trecho manuscrito, o magistrado concluiu que “havia uma certa reciprocidade atrativa no relacionamento, o que já é suficiente para descaracterizar o alegado assédio entre dois adultos livres e descompromissados”.

Conforme a sentença, “ficou claro que, em algum momento, houve – pela ora reclamante - a aceitação da proposta patronal, especialmente quando ele demonstra consideração para com a serviçal e seu filho menor, a quem mandava presentes”.

O juiz também definiu que o empregador era “um romântico à moda antiga”, que apenas tentou declarar desejo e carinho à reclamante, “mesmo com o risco de se passar por ridículo em suas mensagens amorosas, nas quais não usou termos ofensivos ou que demonstrassem sua superioridade na relação de emprego”.

Na conclusão, o julgador escreveu que “enquadrar o sentimento e as investidas românticas do reclamado como assédio sexual seria uma pena demasiadamente pesada, pois, se assim fosse, todos os homens teriam que fugir das mulheres para evitar problemas com a Justiça”.

Não houve recurso para o TRT.  Com o trânsito em julgado, reclamante e reclamada se acertaram durante conciliação de iniciativa dos advogados. Após o pagamento de R$ 3 mil, em espécie, eles se cumprimentaram cordialmente. E cada um foi para seu lado.

Como fundo musical, a “rádio-corredor” - operando em ´live´- fez ecoar versos de Roberto Carlos:

Eu sou aquele amante à moda antiga /

Do tipo que ainda manda flores /

Aquele que no peito ainda abriga /

Recordações de seus grandes amores”.

Se o leitor quiser recordar os versos de Amante à Moda Antiga, clique no link

https://www.youtube.com/watch?v=NguyPwLMioo   

 


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