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Porto Alegre, sexta-feira, 18 de junho de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 22).
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Como lidar com a vírgula (4)



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Usa-se vírgula para marcar o vocativo

A vírgula do vocativo é por certo o sinal de pontuação mais sonegado da língua portuguesa. Entre os que escrevem, são poucos os que lhe dão a devida atenção e importância. A consequência, em muitos casos, é trágica para o significado. Por isso, mais importante que a regra é a atenção ao sentido da frase.

Examinemos um exemplo que vem de um antigo programa do Ministério da Educação denominado “Fala Brasil”. Os brasileiros que quiserem participar do programa, se forem fiéis ao significado expresso na frase, dirão: “Brasil”. Na verdade, o que o meritório projeto solicita é que os brasileiros se engajem transmitindo a ele experiências exitosas alcançadas na área da educação, com o objetivo de repassá-las para toda a rede de educação brasileira.

O que faltou para transmitir esse significado, e não aquele? Apenas uma vírgula: “Fala, Brasil”. Como se conclui, a vírgula do vocativo pode interferir, e muito, no sentido que se pretende produzir. Aliás, essa é a razão da regra que envolve o uso da vírgula do vocativo. Situações semelhantes à do exemplo podem ocorrer em diálogos entre profissionais do Direito: “Fala, Doutor / Fala Doutor”. “Responda, Doutor / Responda Doutor”. “Julga, Juiz / Julga Juiz”. As possibilidades são infinitas.

Mas, felizmente, há quem fique atento a essa importante vírgula. É o caso do Tribunal Superior Eleitoral, que em diversos anos de eleições lançou campanhas apelando à população para que vote, usando esta frase: “Vota, Brasil”, com a indispensável vírgula do vocativo. Retirar a vírgula levaria a entender que Brasil seria o nome de algum candidato apoiado pelo TSE.

Mas, afinal, o que é vocativo? É o nome que se dá a esse termo sintático usado para chamar ou interpelar alguém pelo nome, apelido ou por alguma característica. Deriva do latim “vocare”, que significa “chamar”. Assim, poderíamos trocar “vocativo” por “chamamento”.

Na sequência, apresentam-se alguns exemplos que provam a importância do uso, ou não, dessa tão abandonada vírgula:

 Toca, minha amiga! Sem a vírgula, do significado de estímulo, passaria a uma simples recomendação para que se tocasse na amiga.

 Bota pra quebrar, BrasilSe não se usar a vírgula, a intenção é a de quebrar o País, ou seja, a frase passa a fazer coro com o “quanto pior, melhor”.

– Não engorde demais, meu filho! Sem a vírgula, de conselho da mãe para o filho, passa a uma recomendação para a nora mudar a dieta.

 Estou bem, mãe. Foi a resposta que o filho em viagem deu à mãe pelo WhatsApp. Se tivesse omitido a vírgula, talvez pudesse causar alguma preocupação.

 Ave, Maria, cheia de graças... Caso se omitisse o uso das vírgulas de vocativo que isolam “Maria”, haveria o sacrilégio de chamar Maria de ave, pássaro, galinha. Aliás, trata-se de erro comum nos livros que reproduzem as tradicionais orações da Igreja Católica.

– Vamos comer, gente! Para evitar cenas de canibalismo, é bom nem pensar em eliminar essa vírgula do vocativo.

– Papa Paulo! Neste caso, não há vírgula porque não se trata de vocativo. Mas, poderia ser, caso se quisesse introduzir sentido diverso, com conteúdo malicioso: “Papa, Paulo!”.

Claro que a vírgula do vocativo nem sempre afeta o significado, mas há sempre a necessidade de preservar a estrutura da frase. Assim como a casa da gente tem que ter portas e janelas, para que nela se possa entrar, assim como a luz e o ar, a frase precisa ter suas portas e janelas, sob pena de não respirar nem receber a imprescindível luz.


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