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Porto Alegre, terça-feira, 3 de agosto de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 6).

Em Cuba, a repressão política e a crise econômica estão piores



Imagem: DPA VÍA EUROPA PRESS / EUROPA PRESS

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Em 20 de março de 2016, cinco anos atrás, Cuba vivia a “Primavera de Havana”, com a inédita visita do então presidente americano Barack Obama e um histórico show dos Rolling Stones em praça pública para 400 mil pessoas. Havia esperança de mudanças na ilha, em direção a mais liberdade e desenvolvimento, com base no turismo e na maior flexibilidade para o envio de recursos pelos cubanos nos EUA.

Atualmente, “ativistas e estudiosos afirmam que a repressão política e a crise econômica estão ainda piores” - resumiu destacada matéria publicada pelo jornal O Globo, em sua edição de domingo (21).

Cuba tem um dos povos que mais buscam a independência, mas o país sempre esteve à sombra de outras nações. Cuba substituiu a Espanha pelos Estados Unidos, depois pelos russos e pelos venezuelanos. Agora há uma piada em Cuba: “Quando chegarão os chineses?” conta a cubano-americana Silvia Pedraza, professora de Sociologia e História da Universidade de Michigan, para quem, no entanto, não há interesse estratégico dos chineses na ilha. “Eles são muito presentes em Cuba, mas da mesma forma que estão ganhando peso em toda a América Latina” – completa.

O chiste retrata um pouco da história da ilha e da desesperança atual: desde a revolução de 1959, o país sempre teve apoio de outras nações, notadamente a União Soviética e a Venezuela, ou obteve recursos de parcerias com nações como Angola e o Brasil em troca de serviços médicos. Agora, Cuba vive uma fase em que tem pouco auxílio externo: recebe 42 mil barris de petróleo por dia do regime de Nicolás Maduro, menos da metade do ápice de 90 mil barris diários, entre 2011 e 2014.

Queda do turismo

O governo de Donald Trump interrompeu a normalização das relações iniciada por Obama, e voltou a impor fortes limites a remessas e viagens à ilha. Hoje, Cuba enfrenta queda drástica no turismo, agravada pela pandemia — foram 2,275 milhões de turistas em 2019, contra 1,024 milhão no ano passado, segundo The Havana Consulting Group.

Para completar, a ilha registra uma redução de 62% nas remessas dos cubano-americanos. Segundo as estimativas da consultoria, elas passaram de US$ 3,7 bilhões em 2019 para US$ 2,3 bilhões em 2020. Isso complica ainda mais a situação econômica e social do país.

— Desde 1º de janeiro estamos vivendo o chamado “período de ajuste”, com um aumento dos salários, mas os preços dos serviços e produtos subiram muito mais, e é impossível para uma família com salário básico comprar alimentos, roupa de vez em quando e ainda pagar pelos serviços de eletricidade, água e gás - afirma Marthadela Tamayo González, integrante do Comitê Cidadão pela Integração Racial, sobre o projeto do governo que libera muitas funções para os chamados “cuentapropistas”, os empreendedores de pequenos negócios.

Tamayo e outros cubanos que conversaram com o jornal O Globo, nos últimos dias, alguns deles pedindo anonimato, confirmam que a degradação não é apenas econômica, levando algumas famílias a uma situação de fome. Outrora motivos de orgulho da ilha, a educação e a saúde públicas enfrentam problemas de qualidade, segundo os moradores.

Embora Havana celebre sua capacidade de pesquisa e afirme que, em poucos meses, poderá ter sua própria vacina contra o Covid-19 - os serviços têm perdido qualidade por falta de investimentos. No caso dos hospitais, há carência de médicos, o principal “produto” de exportação de Cuba, mesmo com o fim da parceria com o Brasil no programa Mais Médicos.

- Estamos vendo um grande aumento no número de pessoas que arriscam a vida atravessando o mar até os EUA em balsas improvisadas. O número de “balseiros” até a Flórida ou as Bahamas aumentou muito nos últimos meses - afirma Silvia Pedraza.

Pressão política

Mas, para muitos, pior que a situação econômica -  que lembra o chamado Período Especial, a grande depressão econômica que se seguiu ao esfacelamento da União Soviética - é o cenário político. Ativistas cubanos e analistas internacionais criticam o estado dos direitos civis na ilha, que, segundo o Instituto de Raça, Equidade e Direitos Humanos, de Washington, contabiliza hoje 77 presos políticos, número semelhante ao registrado na época da visita de Obama, quando eram 89.

- Se Obama deixou um legado em Cuba foi o de ter sentado na pauta dos direitos humanos. Depois de sua visita, a repressão aumentou - diz Maria Matienzo, jornalista independente de Havana.

O costarriquenho Carlos Quesada, diretor-executivo do Instituto de Raça, Equidade e Direitos Humanos, afirma que a pressão política está maior no país, que há três anos é governado por Miguel Díaz-Canel, substituto de Raúl Castro. Aos 89 anos, Castro anunciou que agora deixará o cargo máximo do Partido Comunista de Cuba (PCC), em abril.

Internet e protesto

Um dos poucos legados da mudança vista na era Obama que permaneceram é o acesso à internet, que está mais fácil e tem forte apelo entre os jovens. Quando Obama esteve na ilha, era preciso comprar cartões de acesso wi-fi de US$ 2 dólares e ficar “navegando” dos poucos pontos de sinal, na ilha, em geral em praças públicas. Hoje há internet nos celulares, com redes 3G. Porém seu custo ainda é proibitivo. Um pacote de 14GB custa US$ 46, ou o equivalente a um salário mensal para a maior parte dos cubanos. E o serviço é ruim, há censura a determinados saites e o serviço “cai” em momentos críticos políticos.

Mesmo assim, o acesso à internet está por trás do que muitos afirmam ter sido a maior manifestação política de oposição na ilha desde a visita de Obama: o protesto de 27 de novembro, liderado por 30 artistas de sucesso.

Emilio Morales, presidente do Havana Consulting Group, avalia que as mudanças políticas são irreversíveis, embora possam demorar.

- Isso é o que o cubano mais quer, e esta situação de crise econômica, sem apoio externo e com o início da comunicação entre jovens por internet e rede sociais, é algo que serve de combustível para a mudanças políticas.

Desta vez, porém, os cubanos deverão estar sozinhos nesta mudança. Ao menos até agora, o governo de Joe Biden sinaliza que a ilha não será prioridade, e que mudanças substanciais, como a reversão das sanções impostas por Trump, seguem distantes.

- Uma mudança na política para Cuba não está entre as prioridades do presidente - disse no início do mês a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki. Ele ressalvou, todavia, que Biden está “comprometido” a revisar decisões de Trump, que – quando no poder – designou Cuba como “um Estado patrocinador do terrorismo”.

Leia a íntegra da matéria na origem, jornal O Globo. Clique aqui.


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