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Porto Alegre, sexta-feira, 16 de abril de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 20).
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O juiz hipocondríaco



Arte EV sobre imagem Camera Press

Imagem da Matéria

No início da década de 90 um jovem brasileiro que usufruía dos prazeres de Punta del Este, hospedado em uma bela residência, é surpreendido por uma ação da brigada antinarcóticos, e é detido. A vistoria em seu veículo revela a existência de um tubo de Redoxon com cocaína.

A tal brigada era constituída de jovens uruguaios em período do serviço militar, selecionados para deixarem os cabelos longos, a barba comprida, vestirem calças jeans, alpargatas e frequentarem as noites calientes do balneário.

O detido foi orientado por policiais do Departamento de Maldonado a confessar, pois assim feito, de imediato, seria levado até o Chuí e expulso do território uruguaio. Confessado o porte da droga, veio a surpresa: foi condenado sumariamente pelo juéz do jusgado a cumprir pena no presídio de San Carlos.

A família procurou um advogado brasileiro para intermediar a contratação de um daquele país, eis que o primeiro que atuou na causa teve receio de apresentar defesa apontando as arbitrariedades cometidas pela polícia, pois temia retaliações e sanções.

À época, ainda eram visíveis os resquícios da ditadura militar que dominou durante décadas o Uruguai. Curiosamente, quando o celular ainda era uma ficção, as ligações telefônicas eram realizadas por telefone comum, muitos ramais instalados nos edifícios e os porteiros faziam “bico” como informantes da polícia.

Depois de muita procura foi contratado um jovem criminalista corajoso que aceitou a incumbência.

A tentativa seria a de anulação do processo, pois desatendidas diversas formalidades.

Eram tempos em que jamais se imaginaria a liberação do uso da maconha como ocorre hoje, pois a legislação uruguaia repressiva das drogas era considerada uma das mais rigorosas do mundo, só perdendo para o Japão e a Tailândia.

No presídio - praticamente um colégio de internos, se comparado aos padrões brasileiros - só havia argentinos e brasileiros condenados em razão do uso de drogas. Uma curiosidade: os uruguaios que cumpriam pena eram quase todos por golpes financeiros, inclusive alguns crupiês do cassino.

O advogado uruguaio enfrentando o processo - que lá anda a passos de tartaruga, o que não nos surpreende - finalmente consegue a anulação do feito com a reinquirição do réu e de uma testemunha. Esta era a chave, por ser ela que fora vista por primeiro – pelos jovens infiltrados - utilizando droga no banheiro de uma pizzaria.

Ocorrida a prisão, apontou o nome do outro como sendo quem fornecera a cocaína. Eles eram amigos em Porto Alegre e o fornecimento não havia sido mediante pagamento.

Havia muita esperança, mas ao mesmo tempo uma grande ansiedade pela firmeza do juez na condução das audiências. Além de tudo era conhecido por ser excessivamente conservador.

O causídico uruguaio insiste na realização de uma reunião prévia em um café, cercado de cuidados e receios. Recomendou deixar o carro longe e não chamar a atenção. A ninguém passava pela cabeça o conteúdo da reunião. Na hora marcada lá estava o abogado que quase sussurrando segredou: “Descobri que o juiz é hipocondríaco, tem muito medo de doenças”.

Assim, dirigindo-se à testemunha, recomendou a ela que “a primeira coisa a dizer é que o comparecimento à audiência está sendo um enorme sacrifício, por ser portador do vírus da AIDS”.

Era o início das contaminações no mundo e pouco se sabia a seu respeito, inclusive a forma de contágio.

Dito e feito.

A testemunha recitou o verso introdutório e, logo após, o juez dirigiu-se à escrevente: “Ramona, tenho um compromisso no meu gabinete, vou permanecer lá enquanto te encarregas das perguntas e do registro das respostas”

Assim, o magistrado saiu às pressas da sala de audiências, ali não mais voltando naquele dia.

O processo foi anulado graças ao novo depoimento e o jovem brasileiro pode finalmente retornar, após férias inesquecíveis.   

O advogado uruguaio conhecia a aldeia e os caboclos. Também conhecia o cego dormindo e o rengo sentado.


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