Ir para o conteúdo principal

Porto Alegre, sexta-feira, 14 de maio de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 18).
https://espacovital.com.br/images/direito_inverso.jpg

A nova forma de advogar e o saudosismo das gerações passadas



Divulgação – Base de dados do Palácio Piratini

Imagem da Matéria

Lendo o artigo do colega Rafael Berthold (“A nostalgia de autos físicos”, Espaço Vital de sexta passada, 16) retroagi no tempo, em especial, quando pontuadas as recordações de pais e filhos.

Talvez, não tão idoso quanto, mas próximo da provecta idade – como piloto de um cansado avião que examina no seu plano de voo o melhor local para pousar e parar de vez em solo seguro - reavivei fatos do início de minha carreira, no escritório do meu pai, na Rua Andrade Neves. O Foro Central, ainda, na Rua Siqueira Campos era de um charme deslumbrante, com a configuração de dois cartórios ocupando o mesmo espaço físico como p. ex. a 2ª e 10ª Varas Cíveis e a saudosa lembrança de um dos notáveis servidores em todos os sentidos, o “seu” Adão.  

A nostalgia - sensação de momentos vividos no passado, aliada ao desejo de regresso impulsionado por lembranças felizes - deve estar presente nas nossas vidas, mas não caracterizada pela melancolia ou tristeza, pois se assim sentida, não nos daria a oportunidade de crescer. Hoje, mais do que nunca, qualquer profissional que perder o trem do avanço científico e tecnológico, é literalmente expelido do mercado de trabalho.

Atualmente, na área jurídica, seria inconcebível advogar sem um mínimo conhecimento de peticionar eletronicamente, consultar sites, andamentos processuais, Tribunais Estaduais e Superiores, pesquisa de jurisprudência... Ainda presenciei a época em que se procurava acórdãos nos índices da Revista dos Tribunais, Santo Deus!

Se válida a máxima de que não existe meio fumante e meia grávida, certamente, não existe meio advogado razão única que, penosamente, levou a me atualizar.

Entretanto, em que pese a remodelação dos mecanismos básicos para exercer a nossa profissão, nos deparamos com uma barreira instransponível denominada tempo. Em regra, o ser humano tem grande capacidade de adaptação e aprendizagem, mas estas circunstâncias não exaurem o tema que é por demais abrangente e alvo, há algum tempo, de análise por parte de estudiosos da área comportamental mundana.

O encontro do jovem advogado colega com a super gata e o oferecimento, pelo pai dele, do carro para sair com ela, diz tudo. O avanço tecnológico é imprescindível, mas há um divisor de águas quase invencível entre gerações, tamanha a velocidade com que ocorre.

Ainda que indubitável e sem retorno, a presteza do mundo moderno é perceptível, com razoável bom senso, que a contemporaneidade necessária, como quase tudo, pode ser vista sob dois prismas.

Sem dúvida, hoje, se busca insanamente a celeridade que, por vezes, não traduz felicidade, mas facilidades. Vivemos no mundo do descartável, seja em que setor da vida se possa imaginar.

Há alguns anos vi e li uma reportagem, acompanhada de fotografia, produzida na China, em um restaurante onde haviam algumas mesas ocupadas. Uma delas chamou a atenção de um cliente/repórter e estava sendo utilizada por uma família constituída de cinco pessoas: pai, mãe e três filhos. Dizia o atento repórter, que conversaram com terceiros e entre si, durante toda a refeição somente através de celulares, em silêncio sepulcral. E o que lhe deixou mais atordoado foi observar que este era o comportamento de quase todas as pessoas que frequentavam o local.

Por certo, há algo de errado e a ciência e tecnologia, em determinado momento, se perderam.

Um grande amigo, médico neurologista, há algum tempo, em rápida conversa, desabafou: “Daqui a mais alguns anos, teremos zumbis andando pelas ruas. Hoje, quase todos os órgãos humanos são passíveis de substituição menos um, o cérebro”. 

Como diz o surrado mas verdadeiro ditado, a cabeça não deve ser utilizada apenas como depositária de chapéus. Este cenário é preocupante e, no mínimo, conflituoso. Até que medida o avanço científico e tecnológico terão valia?

Peguemos um exemplo aos operadores do direito: há vinte anos, éramos obrigados a nos deslocar até os fóruns para protocolar uma singela petição. Frio, calor, chuva faziam parte da rotina, mas quando lá chegávamos eram verdadeiros encontros de amigos, abraçando uns aos outros, trocando informações jurídicas ou não, contando piadas, tomando um cafezinho e rindo.

Hoje, o frio, o calor, a chuva não importam. Há, inclusive, não sei por quanto tempo, o drive-thru, de entrega de petições e autos (motivo pelo qual deve cair em desuso).

De qualquer sorte, o peticionamento é realizado de dentro de uma sala do escritório ou, atualmente, da própria casa, em trabalho home office, sem qualquer necessidade de, pelo menos, dizer um ´bom dia´ ou ´boa tarde´ ao atendente. Sem troca, sem conversas e sem aquele prazeroso apertado cumprimento de um colega que há tempo não víamos. 

 

Leia na base de dados do Espaço Vital: A nostalgia de autos físicos


A PALAVRA DO LEITOR

Se você quiser esclarecer, comentar, detalhar, solicitar correção e/ou acréscimo, etc. sobre alguma publicação feita pelo Espaço Vital, envie sua manifestação.

Mais artigos do autor

Charge de Gerson Kauer

“Os juízes estão cada vez piores”

 

“Os juízes estão cada vez piores”

torre de marfim e duas situações na rotina forense: 1) “A magistrada acaba de informar que tem hora marcada no dentista e transferirá todas as audiências”. 2) “Se o senhor quiser falar pessoalmente com o desembargador, depois não poderá fazer sustentação oral”...

Arte EV

O constrangimento ao desejar uma feliz Páscoa

 

O constrangimento ao desejar uma feliz Páscoa

“O equívoco do TJRS ao ´esclarecer´ sobre o ´auxílio-saúde´ está em refugiar-se na determinação do CNJ, que não deveria ter a autonomia para deliberar sobre os próprios privilégios da magistratura”.