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Porto Alegre, sexta-feira, 14 de maio de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 18).
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De olho nas curvas molhadas



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Era verão, fevereiro antes da pandemia. A água que jorrava no chuveiro era reparadora, após a dura jornada de trabalho cumprida com uniformes protocolares, em clima canicular, pela mulher de 41 anos.

Conforme a acusação, “o denunciado tentou filmar ou fotografar ilicitamente a vítima do voyeurismo, durante o banho desta, ao inserir o celular pela janela do banheiro da residência da visada”.

Desnuda, percebendo a sutil presença do aparelho que invadia a janela térrea, a mulher gritou e tentou – sem êxito - arrancar o celular das mãos do abelhudo. Este, sem demora, foi preso em flagrante pela pronta reação de vizinhos.

A assentada do depoimento do acusado foi primorosa: “Confessou ter tentado capturar as imagens, sob o argumento de que ouvira um barulho e achou que alguém poderia estar precisando de ajuda dentro do banheiro”.

A perícia feita no celular não encontrou imagens eróticas armazenadas, o que levou o Ministério Público a pedir a condenação pelo “crime tentado”.

A decisão condenatória dispôs ser “inverossímil a versão do acusado de que sua intenção era unicamente a de ajudar quem estivesse passando mal no banheiro. É que várias poderiam ter sido as condutas instintivas, se efetivamente houvesse preocupação com o barulho ouvido, tais como perguntar em voz alta se a pessoa precisava de ajuda. Todavia, a primeira ação perpetrada pelo acusado foi a de captar a imagem com o celular pela janela do banheiro, tendo o cuidado de retirar a capa do aparelho para não chamar a atenção pela cor vermelha".

O denunciado levou quatro meses de prisão, com suspensão condicional da pena por dois anos.

Nas plagas gaúchas conta-se que, para evitar a repetição do ´fenômeno´, foi colocada grade e espessa película protetora na janela do banheiro térreo visado.

Detalhes finais, mas sutilmente importantes: o condenado é um sentinela da Aeronáutica, enquadrado legalmente por “tentativa de violação de recato pessoal”, crime previsto no artigo 229 do Código Penal Militar. A tentativa de filmagem e/ou fotografia visara uma capitão da Aeronáutica. Ela estava em sua casa, enquanto o soldado fazia a segurança do local, que era uma residência oficial – o chamado “Próprio Nacional Residencial”.

Ah! Por decisão do Superior Tribunal Militar, o bisbilhoteiro foi excluído da força aérea. E não se fala mais nisso.


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