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Porto Alegre, sexta-feira, 18 de junho de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 22).
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O amor é lindo!



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Esta é uma história de antes da pandemia. Era um Onze de Junho, véspera do Dia dos Namorados, audiência de conciliação em comarca interiorana. A jovem esposa busca formalizar a pensão alimentícia para os filhos e quer 30% a mais do que o valor oferecido pelo marido.

- Ela está querendo muito, sempre foi ambiciosa. Assim não vai sobrar nada pra mim - afirma o homem, que é pequeno comerciante e astuto vereador.

- Não é muito não, doutor, ele pode pagar, porque como todo político tem caixa 2. E, afinal, eu fiquei com três filhos para criar – responde a mulher.

- Três filhos não! São dois! -  rebate o homem, já avermelhando.

- São três! -  insiste a mulher.

O juiz folheia os autos, para esclarecer a controvérsia.

- Minha senhora, pela petição inicial e certidões juntadas, vejo que são dois os filhos havidos no casamento.

- Eram dois até o mês passado. Mas fiz um exame esta semana e descobri que estou grávida. Vai nascer no final de dezembro -  a jovem mulher fala baixinho com ternura.

O silêncio na sala dura meio minuto, enquanto os litigantes trocam ternos olhares.

- Grávida mais uma vez - e por que não me contaste? – o homem questiona, num misto de estupefação e alegria.

- Já estavas fora de casa e achei que ficarias brabo. Mas o filho é nosso! – explica a mulher.

O homem coça a barba cerrada e faz uma ponderação típica de político ligeiro.

- Bem, excelência... acho que advogados, juízes e promotores chamam isso de fato novo, não é? Peço, então, que o senhor suspenda o processo para que a gente tente se entender.

- É isso que a senhora quer? Reconciliar com o seu esposo e esperar junto com ele o nascimento do novo bebê? – pergunta o magistrado.

A mulher sorri afirmativamente.

- E os senhores procuradores, têm algo a dizer? - questiona o magistrado.

- Em briga ou paz de marido e mulher, eu é que não vou meter a colher! – brinca o defensor do réu, parafraseando o ditado popular.

- Constato a expressão de felicidade de minha cliente - reconhece o advogado da autora.

Audiência encerrada, os cônjuges saem de mãos dadas. Uma semana depois,  ingressa a petição conjunta de desistência da ação.

- O amor é lindo! – comenta o juiz com a assessora, ao ditar a sentença de homologação do acordo.


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