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Porto Alegre, sexta-feira, 18 de junho de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 22).
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Qual é o teu plano?



Charge do cartunista Pelicano (www.movimentodasartes.com.br/pelicano/)

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Eu pago um plano de saúde individual há 25 anos e, graças a Deus, uso só uma vez por ano, para exames de rotina e consulta médica. Quanto eu desembolso? R$ 1.175 por mês.

Mesmo que eu já tenha perdido a garantia e esteja pagando revisão, este preço para um plano individual é um absurdo. Mas os donos do plano devem achar que, pela idade, já devo estar doente e me incluíram no pacote “Ônus Maior que o Bônus”.

Imaginem vocês que, pelo preço que pago, certamente devo ter direito a um quarto de hospital com banheira, travesseiros de pluma de ganso, helicóptero me resgatando em casa e dois eunucos à disposição me abanando. Ledo engano.

Meu quarto é conjunto com mais uma pessoa e pago a diferença nas consultas e exames que realizo.

Nesta semana, pensei muito sobre manter, ou não, o plano de saúde. É que um amigo foi diagnosticado com Covid-19, ele tem um plano de saúde melhor do que o meu, e necessitou ser internado ante o agravamento de seu quadro de saúde.

Para evitar a intubação foi prescrito pelos médicos um medicamento chamado Tocilizumabe, que é um moderno anti-inflamatório que reduz o risco de necessidade de ventilação mecânica em pacientes mais graves hospitalizados, obviamente reduzindo a mortalidade.

No entanto, no caso do meu amigo, o plano de saúde negou o pagamento dessa medicação e a família necessitou desembolsar R$10 mil.

Esta postura, além de ilegal é desumana, pois no momento de maior dor, angústia e medo, a família preocupada com o estado de saúde do familiar precisa conseguir dinheiro de forma inesperada. Mesmo “estando coberta” por um ótimo plano de saúde...

Fico pensando no número de mortos divulgados e me pergunto: quantos não tiveram a possibilidade ou escolha de usar a tal medicação, ou outra não paga pelo plano? E os que não tinham nem plano de saúde e nem dinheiro? Talvez isto explique tantas mortes.

A nominata de planos de saúde que se negam a pagar medicação é enorme, para não dizer a maioria. Além de não forneceram gratuitamente os testes para detecção do vírus, ainda se negam a custear o pagamento dos tratamentos disponíveis.

Faço uso da frase de Hannah Arendt (filósofa política alemã, de origem judaica) que a usou em outro momento, em outro século, mas que cabe aqui como uma luva: “O direito mais primário é o direito a ter direito".

Resta-nos ingressar com ação judicial requerendo seja o plano obrigado a pagar pelo tratamento, pedindo uma tutela de urgência, torcendo para que nenhum hacker desocupado invada o site do tribunal e tudo paralise novamente.

Ou, então, raspar as finanças, pagar o que estão pedindo e depois entrar com uma ação buscando o ressarcimento do valor. Todos cientes e conformados que - com a agilidade do Judiciário e o excesso de recursos disponíveis ao devedor - o valor voltará daqui uns cinco anos, no mínimo.

As decisões judiciais que li dizem que, comprovada a existência de prescrição médica, bem como a vigência do vínculo contratual com o plano e a medicação estando registrada na ANVISA, seria  abusiva a negativa de cobertura.

Triste? Revoltante? Nojento? Resposta: todas as alternativas são reais.

Em meio a esta situação angustiante recebo a ligação de uma operadora de planos de saúde. Do outro lado, uma voz feminina agradável e mestre em gerúndios me pergunta, alegremente, se eu já possuo um plano.

Eu respondo:

- Sim senhora, eu tenho! É o seguinte: “Morrer sem nunca precisar de vocês, seus #$@%&*&=#...

Ela desligou na minha cara!


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