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Porto Alegre, terça-feira, 3 de agosto de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 6).
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O equívoco do uso da expressão “distanciamento social”



Arte: https://clinicacemep.com.br/

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Distanciamento social ou físico?

A pandemia do novo coronavírus alterou em muito as relações humanas, inclusive na linguagem. Uma das principais medidas no combate à proliferação do vírus é a que se denomina “distanciamento social”.

Entendo que seja uma denominação equivocada. Na verdade, o que se recomenda é evitar o contato físico. Não se está querendo impor que as pessoas evitem o relacionamento social, que não se comuniquem, seja por telefone, WhastApp, mensagens eletrônicas orais e escritas de toda ordem, também utilizadas nas relações sociais e que, portanto, fazem com que não ocorra o distanciamento social.

O que se deseja mesmo é que se evite o contato físico; portanto, é mais preciso falar em “distanciamento físico”. Também é correta a forma simplificada “distanciamento”, sem mencionar o tipo de distanciamento, como fez o cartunista Cazo ao ilustrar a matéria “As pesquisas e sua influência no processo eleitoral”, de Elaine Harzheim Machado, também publicada nesta edição do Espaço Vital.

Pessoa natural / Pessoa física

No ambiente forense, predomina o uso de “pessoa física”, em que pese ser mais preciso “pessoa natural”, como o faz o Código Civil. Em diversas leis, em especial as que regulamentam o Imposto de Renda, usa-se preferencialmente “pessoa física”.

Tem-se a impressão de que essa preferência se deu, inconscientemente, para caracterizar um antônimo de “pessoa jurídica”, como algo material, palpável, concreto, já que a jurídica se parece com um ente imaterial, abstrato, no entanto dotado de consistência material, que tem nome, endereço, registro, e seu administrador, no exercício da administração, não é pessoa natural, mas a própria pessoa jurídica.

Seja como for, o uso parece estar consagrando definitivamente “pessoa física” como opção para “pessoa natural”. Em nome da precisão, uma das qualidades essenciais da linguagem jurídica, considero uma pena.

Colocação do pronome oblíquo

Aí está um dos pontos mais negligenciados da gramática da língua portuguesa, isso em todos os níveis de comunicação. Seu correto uso é muitas vezes confundido com exibicionismo, em especial nas comunicações orais. Quando alguém diz, por exemplo, “amo-a”, é visto como ser retrógrado, extraplanetário até, que “está se achando”, preferindo-se que dissesse “amo ela”, sem que se perceba a terrível cacofonia da “moela”.

Pois é exatamente para prevenir as cacofonias que existem as normas de emprego do pronome oblíquo. Sua posição anterior em relação ao verbo (próclise), posterior (ênclise) ou entre a raiz e a desinência (mesóclise) segue o princípio da eufonia (bom som): tudo o que resulta em mau som deve ser evitado. Aliás, em vez de memorizar as cerca de 30 normas que regem o emprego desse pronome, sempre recomendo que se eduque o ouvido para que este acuse e faça evitar o uso de cacofonias.

Exemplo marcante se deu esta semana na fala de um Senador da República integrante da CPI da Covid-19, que disse textualmente: “Não falou-se em apagão...”. Diz uma das regras, ignoradas pelo Senador, que as partículas negativas atraem o pronome para antes do verbo, sendo correto, portanto, dizer: “Não se falou em apagão”. Não soa muito melhor? Então, estando atento ao princípio do bom som, a regra se torna desnecessária. Voltarei a tratar do assunto.


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