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Porto Alegre, terça-feira, 3 de agosto de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 6).
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A arte de envelhecer



Imagem: https://www.mensagenscomamor.com/

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Ao longo da vida, e mais nos últimos anos, não só no âmbito  profissional, tenho refletido sobre o envelhecimento.

Por certo, quando temos um assunto em mente, ainda que de forma não obstinada, dependendo da faixa etária do grupo de pessoas a nós relacionado e o momento que permita a troca de ideias sobre a vida, acaba-se tratando deste tema.

Na verdade, até aos 45/50 anos, não colocamos em pauta esta matéria, porque nos dias de hoje esta faixa de idade não traduz mais velhice e, talvez, inconscientemente, não queiramos falar a respeito.

Mas parece que, em linhas gerais, há uma notória fragilidade para lidarmos com o envelhecimento e algumas razões me levam a pensar que o nível dessa dificuldade aumenta na medida em que o mundo e sua população evoluem.

Envelhecer já não era fácil. Com a informatização, a globalização e o avanço da tecnologia, chegar e se manter na velhice se tornou ainda mais desafiador e penoso. Ser velho, na atual sociedade, é quase que uma missão impossível.

Quando me refiro à fragilidade, não me atenho ao processo natural do envelhecimento identificado pela diminuição da energia vital de uma pessoa, mas ao delicado entendimento da sociedade sobre o processo de envelhecimento e a forma como uma pessoa idosa é tratada em diferentes âmbitos sociais.

Nos dias de hoje, o idoso é a parcela da população que mais cresce. O envelhecimento populacional é uma realidade mundial e, no Brasil, os idosos passaram a representar 15% dos brasileiros, ou seja, cerca de mais de 30  milhões de pessoas possuem mais de 60 anos e estima-se que essa porcentagem triplique nos próximos 20 anos.

Essa realidade tem se tornado um problema da modernidade, quase ou de maior relevância do que a mudança climática. Isso ocorre porque à medida que cresce o número de pessoas com  idade mais avançada, a sociedade sofre impactos que comprometem suas estruturas, pois não está preparada para acolhê-los.

As constantes evoluções, relacionadas à tecnologia, são pensadas para atender pessoas jovens. Com o número de pessoas idosas sobressaindo, as discussões sobre mudanças no planejamento social se tornam inevitáveis e constantes e, inclusive, ligadas a paradigmas que influenciam no desenvolvimento de cada fase da vida humana e a comportamentos, individuais e coletivos, que inclui preparo para lidar com a população idosa, envolvendo as mais variadas questões.

Cada vez mais me convenço que viver a velhice, hoje, como “terceira idade” e exaltada como a “melhor idade”, é uma tarefa muito mais complexa e árdua do que há alguns anos.

Em um passado não muito distante, o homem passava a fase juvenil e vida adulta trabalhando para proporcionar à sua família e a si mesmo um bem-estar que lhe permitisse chegar à velhice de forma tranquila. Isso significava que, por volta dos 60/70 anos, poderia começar a desfrutar de sua almejada e merecedora aposentadoria. Aqueles que alcançavam essa meta tinham rotinas de vida pré-estabelecidas pela sociedade, como: ficar sentado em sua cadeira de balanço admirando os dias passar diante de seus já cansados olhos; jogar conversa fora, durante a tarde, na praça do bairro com os amigos e vizinhos da mesma idade; usar parte de seu invejável tempo livre para aconselhar e contar histórias a seus netos e bisnetos; e diariamente se dar o luxo de se acomodar em sua confortável poltrona, em frente à televisão para assistir seu programa favorito.

Independente do estilo de vida adotado pela pessoa aposentada, seguindo, claro, algumas das rotinas mencionadas, o objetivo desta tão ansiada fase da vida era, mesmo, aguardar a chegada da morte.

Aquela pessoa que conseguia chegar à casa dos 60, 70 ou, milagrosamente, aos 80 anos de idade, mesmo que não gozando de boa saúde se dava por satisfeito pelo seu dever cumprido. Mas na verdade, esse ciclo apontado como único e ideal, maquiava o que na verdade a sociedade pensava: que os idosos eram incapazes de gozar de uma velhice diferente, e que por isso eles eram inaptos para o trabalho e impossibilitados para cumprir seus deveres básicos de cidadania.

Nos dias de hoje, isso praticamente já não faz parte da realidade da população mundial, ou pelo menos, já não é mais tão apreciado, menos ainda seguido como antes.

Muitos são os caminhos que podem ser percorridos por uma pessoa aposentada, que na maioria das vezes já tem idade superior a 60 anos, e que antes, ao chegar nesta fase da vida se tornava invisível para a sociedade. A escolha de um desses caminhos que acaba sendo diferente do padrão, é uma quebra de paradigma.

Hoje, o que chama a atenção dos estudiosos sobre o assunto, é a permanência ou retorno de aposentados ao mercado de trabalho. Em recente estudo chegou-se a conclusão que três em cada dez idosos seguem exercendo atividades remuneradas após conseguirem o benefício da aposentadoria.

Outras circunstâncias, também, estão relacionadas aos cuidados com a saúde e ao comportamento da pessoa idosa. Vitalidade, participação ativa na sociedade, espírito jovem, que pode, inclusive, transcender ou não pela aparência física, passou a ser uma exigência social.

São muitos os idosos que desfrutam de um envelhecimento ativo, com base no aprendizado contínuo e as atualizações constantes para manter-se visível e participativo nas questões econômicas, culturais, civis, sociais e espirituais.

Interessante ressaltar os diferentes traços dos idosos. Existem aqueles que não aceitam que seu corpo envelheça. A rejeição do envelhecimento físico, é perceptível pelo estilo da roupa, pela cor e corte do cabelo, pelas transformações físicas, pelos hábitos, etc.

Na outra ponta, aqueles que fazem questão de deixar seus cabelos brancos e apontar cada uma das suas rugas. Para ele, o envelhecimento físico evidencia sua experiência de vida e profissional, e que por meio deles ele obterá maior respeito.

Por fim, aqueles que ficam perdidos ora com vergonha de ser velho, ora com receio de parecer novo. Todos esses perfis, por mais seguros que tentem transparecer, exalam fragilidade relacionada ao medo de não ser aceito pela sociedade devido à sua escolha de como viver sua própria velhice.

Enfim, vejo que esses conflitos estão longe do fim e isto me deixa incomodado porque estou na fronteira, se já não passei, da velhice e dei inicio há algum tempo a busca de respostas concretas, para entender melhor como devo vivenciar o envelhecimento de modo tranquilo e natural como deve ser até a finitude da vida.


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