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Porto Alegre, terça-feira, 3 de agosto de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 6).
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Tartaruga forense, uma expressão da moda jurídica



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Esta expressão está sendo largamente usada entre advogados em alusão à lentidão das demandas jurídicas nos fóruns e tribunais brasileiros. O detentor do Espaço Vital, advogado jubilado e jornalista independente Marco Antonio Birnfeld, é seu grande difusor no Brasil.

Mas, o que a pobre tartaruga tem a ver com isso? A forma lenta de se locomover é marcante característica da tartaruga, virando por isso símbolo de tudo o que anda muito devagar, ou seja, que anda em passos de tartaruga. Talvez em função dessa lentidão, a natureza tenha protegido nosso estimado animalzinho com uma vestimenta dura e resistente, para, quem sabe, protegê-la de possíveis ataques ferozes daqueles que, com pressa, caminham atrás dela.

Em outras palavras, o usuário da expressão está fazendo uma comparação implícita, que é entendida por todos, num processo que em linguística se chama de pragmática. Isto é, descortinando com facilidade um sentido que as palavras não expressam, mas que o autor/orador e o leitor/ouvinte, por senso comum, inferem.

Esse tipo de comparação é o que caracteriza a metáfora, a mais usada de todas as figuras de linguagem, tão utilizada que a usamos sem nos darmos conta.

É diferente da figura de linguagem conhecida como comparação, em que a comparação é explícita, como na conhecida frase de Castro Alves: “A praça é do povo como o céu é do condor”. Enquanto aqui a comparação é claramente expressa, na anterior ela é subentendida. A própria metáfora “tartaruga forense” deixa de ser metáfora para ser comparação se esta for explícita: “É lento como a tartaruga”. Convenhamos que, em termos de ênfase no significado, a metáfora é muito mais vigorosa.

Por que nos dias atuais essa lentidão causa reação mais forte dos advogados do que tempos atrás? Tenho a impressão de que é uma imposição do espírito da época, que é de celeridade. Parece não haver tempo para nada, muito menos para tartarugas.

A propósito, esta semana me deparei com uma afirmação de Charles Chaplin plena de linguagem metafórica e, mais ainda, de significado: “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.”

Não é uma aula magistral de aplicação prática dessa incomparável figura de linguagem? Aliás, Chaplin foi mestre em seu uso.

Concreto, mas redundante

Na face oposta das figuras de linguagem bem utilizadas, estão os vícios de linguagem, entre os quais se destacam as redundâncias, que, ao contrário das metáforas, empobrecem a linguagem, tornando-a enfadonha, porque repetitiva e lenta, e em contraste com os nossos tempos. Entre elas, uma que é ouvida com frequência entre advogados e em órgãos colegiados dos tribunais. Trata-se da expressão “em concreto” em frases como esta: “No caso concreto, acompanho o relator”.

Como nas circunstâncias em que se dá o uso da frase nada há de abstrato, em que tudo é concreto, trata-se de uma redundância a ser evitada, bastando dizer: “Acompanho o relator”.

Em tempos de falta de tempo, a concisão se obriga a estar presente; qualquer economia de palavra vale a pena, ainda mais quando o significado cresce com ela.


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