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Porto Alegre, terça-feira, 3 de agosto de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 6).
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A Catedral de Toledo e a justiça dos homens



Imagens: https://www.fragatasurprise.com/Foursquare

Imagem da Matéria

As gravações sem transcrição dos depoimentos das partes e testemunhas por alguns juízes gaúchos se assemelha ao que pode ser visto na Catedral de Toledo.

Uma construção secular, arquitetura requintada e especialmente projetada para estimular a incompreensão dos relés mortais, estimulando o mistério.

Sobre o altar, o teto converge para uma abertura que permite parcial visão do firmamento. Lembra a todos a conexão entre a misteriosa liturgia e a divindade.

Diferentemente do comum, o altar está situado no meio do prédio.  Na parte frontal, reservada aos padres, freiras, bispos e certamente aos poderosos, há bancos e poltronas.

Sentados, os iniciados tinham visão de tudo que acontecia na missa.

Na parte traseira, sem a visão do que ocorria, mas ouvindo sinetas, cantorias e sentindo o cheiro da fumaça, a plebe alimentava os mistérios da fé e as crendices.

A Catedral de Toledo é considerada a obra magna do estilo gótico na Espanha. Construída de 1226 a 1493, sua parte magnífica é o altar barroco chamado El Transparente. O banho de luz - que vem de uma apropriada fenda no teto - faz com que o altar, por alguns minutos, pareça estar se elevando aos céus, o que originou seu apelido. A catedral tem também 750 vitrais.

A principal fachada tem três portas: a Puerta del Perdón, a Puerta del Juicio Final e a Puerta del Infierno. A primeira tem esse nome porque ali costumava-se garantir as indulgências para aqueles que por ela entravam para pedir perdão.

A justiça - como instituição - adotou algumas liturgias medievais da igreja: as batinas como togas; o altar no nível mais elevado para mesas e poltronas; o latim no incompreensível juridiquês e até pouco tempo, desconhecendo que o estado é laico, crucifixos nas paredes.

A estratégia marqueteira da igreja e da justiça foi a mesma: quanto mais misteriosos,  melhor.

O mundo mudou com a submissão dos serviços públicos à lei e a necessidade de fazer-se conhecer. Em resumo, preponderou a constatação de que o povo não valoriza aquilo que não conhece.

As sessões secretas foram abolidas, a toga restrita aos tribunais, os palácios deram lugar aos prédios e móveis funcionais.

Assim situando, é surpreendente que ainda hoje tentem construir paredes dividindo o “altar” em parte frontal e traseira e ferindo de morte a transparência e as garantias da cidadania. A não transcrição dos depoimentos prestados pelos relés mortais é bem isso.

Aos que têm fé um conselho: rezemos para que surja um Lutero ou um Calvino, pondo um ponto final na arrogante iniciativa.


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