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Porto Alegre, terça-feira, 3 de agosto de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 6).
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A pílula da verdade



Chargista Erasmo Spadotto – Portal Piracicaba Hoje

Imagem da Matéria

Imaginem um político em cadeia nacional, no horário da novela, dizendo somente verdades. Revelando escancaradamente, todas as mentiras e as sujeiras suas, dos seus seguidores e do seu partido. Ele diria, com lágrimas nos olhos, que odeia o povão, que se elegeu para enriquecer às nossas custas, para dar emprego para parentes e amigos, para usar o dinheiro público em benefício próprio.

Por exemplo, ante a pandemia - que trouxe graves consequências para o exercício profissional para a nossa classe - poucos colegas disseram o que realmente pensam da entidade que nos representa, que pouco ou nada fez por nós. Também nada disseram sobre a postura do Judiciário que paralisou seus serviços e... seus servidores.

Agora mesmo com as vacinas em pleno andamento, usando máscaras  e banhados em álcool gel, alguns juízes e servidores insistem em trabalhar on line, amparados na ficção de que as partes, testemunhas e até mesmo profissionais do direito possuam acesso digital suficiente para participar - com qualidade - das audiências virtuais. (A propósito, muitos advogados nem mais escritório possuem, quanto mais um “estúdio” áudio/visual que nos é exigido...)

Ou seja, a classe que mais deveria ser combativa vive uma servidão: eleição indireta para o CF-OAB; votação online nas eleições advocatícias de novembro; atuação partidária da Ordem; Judiciário cada vez mais lento e distante do povo.

E nós, os advogados, quietos.

Eu sou uma fã incondicional da verdade e de quem tem coragem de usá-la. Todos deveriam - pelo menos um dia em suas vidas - tomar uma imaginária pílula da verdade e sair vomitando tudo que nos causa gastrite, úlcera ou câncer. Confesso, até envergonhada, que dificilmente deixo de falar o que penso. Meu lema: “Não pergunta se não estás preparado para a resposta!”

Nada choca mais do que a verdade. Ela anda nua, sem adornos ou máscaras.

Na maior parte das vezes, temos que mentir para conseguir viver, manter relações, conviver em sociedade,  permanecer em um emprego... Sorrir quando nossa vontade é furar os olhos de nosso interlocutor, calar quando somos injustiçados, fingir que não vemos as coisas erradas que acontecem a nossa volta. Mentir e omitir. Fomos criados para sermos educados, ou seja, mentir.

Escolher um lado do muro exige coragem, até por que ao ficar em cima do muro, na verdade, você está sendo injusto com quem está certo.

Experimente agora dizer para seu marido/esposa: “Eu já te traí; eu não te amo mais; você está gorda/gordo; sua mãe é uma mala; casei por medo da solidão ou por dinheiro; não separo para não perder minha vida boa”...

Poucos amigos permanecerão ao teu lado, lindos romances postados ao pôr do sol serão esfacelados, inimigos se levantarão, mas o sabor da verdade vale correr todos os riscos.

Penso que dizer a verdade, mesmo que doa, ainda é a melhor forma de viver. A dor aguda da verdade é melhor que a dor crônica de uma mentira. Nada como poder olhar firme no olho de quem quer que seja e dizer exatamente o que sentimos.

Expor-se sem usar o photoshop da falsidade tem um preço caro e – convenhamos - mentir dá trabalho. Requer  memória, criatividade e improviso.

Estranhamos e repelimos até um político franco. Achamos grosseiro, deselegante. E até mortos ouviremos algum falso exclamando uma mentira sobre nosso caixão: “Era uma santa pessoa!”

Enquanto ao fundo, entre um cafezinho (fornecido, no meu caso, generosamente pela OAB) e uma bolachinha salgada, ouve-se o mestre Renato Russo:

“...Quantas chances desperdicei, quando o que eu mais queria era provar pra todo o mundo

que eu não precisava provar nada pra ninguém...

Fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira...”

Tarde demais, sua cremação já foi efetivada com sucesso....


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